Naquele momento, amarrado ao pilão de madeira, Krishna pôde ver, à Sua frente, duas árvores conhecidas como árvores arjuna. O Senhor Sri Krishna pensou assim conSigo mesmo: “Mãe Yashoda primeiro foi embora sem Me dar leite suficiente, e, por isso, quebrei o pote e distribuí a manteiga em caridade aos macacos. Então, agora que ela Me amarrou num pilão de madeira, vou fazer uma travessura ainda maior”. Foi assim que Krishna pensou em derrubar as duas altíssimas árvores arjuna.
Existe uma história por trás das duas árvores arjuna. Em sua vida anterior, as árvores tinham nascido como os filhos humanos de Kuvera e seus nomes eram Nalakuvara e Manigriva. Os dois grandes semideuses Nalakuvara e Manigriva eram filhos do tesoureiro dos semideuses, Kuvera, que era um grande devoto do senhor Shiva. Eles eram viciados em vinho e sexo.
Certa vez, os dois semideuses, querendo desfrutar, entraram no jardim do senhor Shiva na província de Kailasa, nas margens do rio Mandakini. Lá, eles beberam muito e puseram-se a ouvir o doce cantar das mulheres que os acompanhavam naquele jardim de flores perfumadas. Em estado de embriaguez, ambos entraram na água do Ganges, que estava cheio de flores de lótus e começaram a desfrutar nus da companhia das jovens.
Enquanto se divertiam assim na água, aconteceu que, de repente, Narada, o grande sábio, passou por aquele caminho. Narada pôde entender que os dois semideuses, Nalakuvara e Manigriva, estavam bêbados demais e nem perceberam que ele estava passando. As moças, porém, não estavam tão embriagadas quanto os semideuses e logo ficaram envergonhadas por estarem nuas na presença do grande sábio Narada. As moças começaram a se cobrir com toda a pressa. Os filhos de Kuvera estavam tão embriagados e, por isto, não cobriram seus corpos. Vendo os dois semideuses tão degradados pela embriaguez, Narada desejou o melhor para eles e, lançando-lhes uma maldição, mostrou sua misericórdia imotivada para com eles.
O grande sábio Narada pensou que era seu dever pôr aqueles semideuses numa condição em que não pudessem ser falsamente orgulhosos de sua opulência e prestígio materiais. No entanto, eles se tornaram tão animalescos e irresponsáveis que, por causa da embriaguez não podiam entender que estavam nus. Cobrir a parte de baixo do corpo é um princípio de civilização humana. Narada, portanto, pensou que o melhor castigo para eles era torná-los entidades vivas inertes, ou árvores. Achou conveniente que, por misericórdia, os irmãos fossem punidos tornando-se árvores, mas que continuassem a conservar sua memória para poderem saber por que estavam sendo punidos. Depois de mudar de corpo, uma entidade viva geralmente esquece sua vida anterior, mas, em casos especiais, ela pode se lembrar pela graça do Senhor, como aconteceu com Nalakuvara e Manigriva.
O sábio Narada, assim, decidiu que ambos permanecessem durante cem anos, do tempo dos semideuses, em forma de árvores; depois disto, eles seriam tão afortunados que, pela misericórdia imotivada do Senhor, veriam-nO como a Pessoa Suprema, face a face. Eles, então, seriam promovidos outra vez à vida de semideuses e de grandes devotos do Senhor.
Depois disso, o sábio Narada regressou à sua morada chamada Narayanasrama, e os dois semideuses foram transformados em árvores, conhecidas como árvores gêmeas arjuna.
Embora estivesse amarrado ao pilão de madeira, o menino Krishna começou a engatinhar em direção às árvores gêmeas a fim de realizar a profecia de Seu grande devoto Narada. O Senhor Krishna pensou: “Devo agora cumprir as palavras de Meu grande devoto Narada”. Então Ele começou a avançar através do espaço entre as duas árvores. Embora Krishna fosse capaz de atravessar a passagem, o grande pilão de madeira prendeu-se horizontalmente entre as duas árvores. Aproveitando-Se disso, o Senhor Krishna começou a puxar a corda amarrada ao pilão com muita força. Logo que Ele puxou, as duas árvores, com todos os galhos e membros, caíram imediatamente fazendo um grande estrondo.
Das duas árvores quebradas caídas, saíram duas grandes entidades brilhantes como o fogo ardente. Os dois corpos purificados se apresentaram imediatamente ao menino Krishna e inclinaram-se para oferecer seus respeitos e orações com as seguintes palavras:
“Querido Senhor Krishna, sois a Personalidade Original de Deus, Senhor de todos os poderes místicos. Oferecemos nossas respeitosas reverências a Vossos pés de lótus. Sois o Senhor Vasudeva, o Brahman Supremo, que é sempre glorificado por Vossas potências pessoais internas.
Ó Senhor, ó fonte de toda a fortuna e bondade. Sois a onipresente Suprema Personalidade de Deus, a fonte suprema da paz e a pessoa suprema na dinastia do rei Yadu. Ó Senhor, nosso pai chamado Kuvera, o semideus, é Vosso servo. Igualmente, o grande sábio Narada também é Vosso servo, e, pela graça deles, podemos vê-lO pessoalmente. Rogamos, portanto, que possamos estar sempre ocupados em Vosso serviço amoroso transcendental.”
Quando os semideuses Nalakuvara e Manigriva terminaram suas preces, o menino Krishna começou a sorrir e disse: “Já era de Meu conhecimento que Meu grande devoto Narada Muni havia mostrado sua misericórdia imotivada salvando-os da condição abominável de orgulho causada pela posse de beleza e opulência extraordinárias numa família de semideuses. Ele os salvou de deslizarem para a condição mais baixa da vida infernal. Portanto, ó Nalakuvara e Manigriva, suas vidas agora são bem-sucedidas, porque vocês desenvolveram o amor extático por Mim. Este é o último nascimento de vocês dentro da existência material. Agora podem voltar para a residência de seu pai nos planetas celestiais. Mantendo esta atitude de serviço devocional, vocês serão liberados nesta mesma vida”.
Depois disso, os semideuses circumbularam muitas vezes o Senhor e prostraram-se repetidas vezes diante dEle, e então partiram.
Relato resumido de Srila Bhaktivedanta Swami Prabhupada em seu O Livro de Krsna, cap 10.